Sexta-feira

Paisagens: A Luta - III

Imagem: O Jogo Lugubre - Salvador Dali

Rebeldes esfacelados e esfaimados, levados à selvageria pelo uso da Terra não refinada (extraída ilegalmente de bibliotecas lacradas), sequestraram e violentaram o âncora do telejornal. Depois disso infiltraram-se na Invertida, um grande evento em tributo à Terra [invertida], orquestrado pela Lua Metálica e patrocinado pelas suas demoníacas subsidiárias. Descobertos, foram empalados por projéteis benignos e irrastreáveis, cuspidos por armas de não-se-sabe quais policiais. Os mandantes da beneficência, pacíficos e espiritualizados, médios e corretos — nós — voltaram então seus olhos para a porção de lodo autorizado, patrocinado e divulgado, televisionado em grande escala através da rede venosa do sistema digestivo da unânime Lua fraudulenta.
FIM

Paisagens: A Luta - II

Imagem: Menino Morto - Cândido Portinari

As cartilhas de escolas e os calendários oficiais deixaram de registrar a passagem de um ano inteiro, entre dois séculos concomitantes. Foi o ano em que uma leva de andarilhos veio da Terra, à procura de respostas para suas indagações misteriosas acerca de livros nunca escritos. Misturaram-se ao povo de cá, fazendo nascer conflitos diversos, visto que amedrontavam os preocupados e preocupavam os medrosos. Desiludidos com as manadas auto-ajudadas, regidas pela Lua de metal que lançava marés constantes e obedecidas, eles cogitaram a retirada que nunca cumpriram. Ainda hoje estão em processo de decomposição, logo abaixo da superfície de auto-estradas que levam e trazem seus executores. A matança fora autorizada por autoridades diversas, através de novelas televisivas. Duendes ajudantes redigiram às pressas um best-seller atribuído à autoria de alguma apresentadora obtusa e famosa — composto entorpecente escrito para arruinar articulações de bom senso, autocrítica e culpa. Os assassinos dormiram leves sob seus exemplares autografados, com receitas de bolo na contracapa.

Paisagens: A Luta - I

Imagem: Os Invisíveis - Raymond Tanguy

Na linha do tempo que metrifica a claudicante caminhada da História, há um ponto inócuo: muda intersecção de dúvida — contestado folclore de descrentes. Esse marco apócrifo conta que um conglomerado de Bispos malditos, sobrenaturais entidades da grande Lua Metalescente (editorialíssima) encontrou a Terra em todo lugar. Rastrearam sua polêmica e negada existência até o âmago do centro do olho do cu de cada ser consciente do mundo. Lançaram uma rede de longitudes e latitudes invisíveis pelos hemisférios escuros e vazaram a Terra. Com suas prestidigitações alienígenas, os lunares empresários mortos-vivos pasteurizaram seu conteúdo, inverteram seus pólos e o apontaram feito vidro quebrado contra os rostos do planeta, refletindo um sol cegante que nos tornou felizes. A Lua Metaliforme paira sobre nossas cabeças, conectada à nossa lua, assim como a Terra à nossa terra. Gorda e abençoada massa popular, seu maior triunfo reside em nós, que não olhamos para ela.

Segunda-feira

Paisagens: O Homem - III

Imagem: A vocação de São Mateus, Caravaggio

Em curva poente de estrada crepuscular está a Taverna. A placa desfigurada não permite ler o nome e não se sabe se o seu dono-defunto foi casto anjo ou vampiro libertino. Na Terra, todos os caminhos são dilemas de direções diversas. Se o caminho da Taverna o andante toma, o sol logo desliza afogado pelo horizonte sem norte. Na soleira da porta, logo antes de entrar, a noite cai pesada e profana. No seu interior, embora a madrugada se arraste eterna, o amanhecer sempre chega cedo demais, feito faca solar podando uma vida aos 21. Na lendária mesa de madeira embriagada, encontram-se forasteiros sem pátria e sem honra, dividindo o evangelho assombroso de vidas percorridas em assassinato, incesto, necrofilia e canibalismo. Ali trocam cadáveres exumados, cada um tendo atrás de si uma estrada assombrada, cortando os vários continentes solitários — as vastas propriedades do Diabo.

Quinta-feira

Paisagens: O Homem - II

Imagem: O Turbilhão dos Amantes, do Inferno de Dante - William Blake

“A Paisagem da Terra é o Homem e o Homem conhece a Terra através de si mesmo” — são estas as palavras gravadas logo na entrada da grande Necrópole situada próxima de uma das inumeráveis fronteiras da Terra. (Fundada talvez na derradeira fronteira, de longitude e latitude incalculável). Mais adequadas palavras seriam se repetissem as das portas do inferno — instruções de abandono da esperança. Dentro da marmórea cidade, cheiros comoventes lacrados em concretos fazem valer sua putrefata presença através de gases fantasmagóricos, fogos fátuos solitários. A terra preenchida ameaça ceder num mar profundo de órgãos colecionados. Por todo lado contabiliza-se o fruto máximo da vida: tíbias, crânios e cérebros; rádios, úmeros e vértebras; mandíbulas, escápulas e fêmures, expostos em centenárias catacumbas exumadas pela erosão da História. Em suas infinitas lápides, pende a poesia dos vivos — um alagado conhecimento de sangue, mágoa e música. Os únicos habitantes das ruas labirínticas são animais carniceiros já bastante fartos pela matéria da vida que abunda pelas covas. As aves magníficas que ali comem fazem seus ninhos por todo canto, estendendo asas negras e agourentas, como anjos gordos e gananciosos — a eles a cidade pertence, esse augusto feudo dos anjos de rapina e carniça. Se a paisagem é o Homem, então a Necrópole revela a pavorosa Verdade que constitui toda a extensão do corpo e da alma humana: o último deitar é o propósito único e insensato dessa máquina infeliz de choro e cal.

Terça-feira

Paisagens: O Homem - I

Imagem: A Aldeia das Sereias - Paul Delvaux


O explorador que desbrave os caminhos informais da Terra deve ter cuidado com uma certa estrada enrolada em si mesma, feito cobra mal intencionada — ela leva ao coração da noite selvagem, onde cavalos velozes e diabólicos bebem o vinho da vida e da verdade. Aninhada à fundação ancestral da estrada pulsa uma cidade, de nome Lispector, cujas cuneiformes placas de argila avisam as notícias velhas de seus moradores ausentes. Ninguém que se encontre ali, ali mora. Todos se afundaram em intensa viagem, dentro de barcos pintados pelos muros, navegando as rotas comerciais de tijolos eternos. Ovos inquebráveis e perfeitos guardam as respostas dos enigmáticos hieróglifos que não permitem existir duas paredes iguais. A cidade nega ser cidade e através das ruas cobertas de enxurradas alimenta o futuro com suas frestas em muros indestrutíveis, ouro maciço e água salgada.

Quarta-feira

Paisagens: A Terra - III

Imagem: A Esperança (II) - Gustav Klimt

Depois da fronteira, Terra adentro, há um Prado secretíssimo, à beira de floresta sagrada e morredoura. Ali uma missionária bandeirante conhecida como Adélia fincou missão teológica. Viveu fortalecida no Prado, circundada por vida de cidade pequena, usando a Terra para alimentar páginas fervorosas de uma religião febril e inquieta. Pouco saiu do Prado, avistando os horizontes míticos através de um espelho de bolso e poderosas poesias embebidas em Deus. Provou de uma vez por todas que bastava usurpar um grão da Terra para que pudesse tê-la por inteiro. Repetiu a façanha com a Divindade ao sorver todo o infinito de Seu eterno Corpo, degustando apenas a pequenez de uma simbólica hóstia. Ainda hoje Adélia vive no Prado, pois herdou a fecundação do solo úmido e nele cultivou uma horta de anos por vir.